quarta-feira, 8 de setembro de 2010

O BAR DO BRITO: A GÊNESE

Várias são as lendas e teorias sobre o começo do Bar. Há quem diga que para refletir melhor e criar a humanidade deus, no primeiro dia não criou nada, só o Bar do Brito, aí, sim, relaxou um pouco e pode criar o mundo, a partir do segundo dia.Dizem também que nem Sócrates, nem Platão, nem filósofo algum teria sequer pensado, se não tivessem se reunindo às sextas no Bar pra tomar uma. Já ouve quem disse que Napoleão perdeu a guerra porque estava de ressaca depois de uma noitada por lá, e D. Pedro I, junto com a Marquesa de Santos, óbvio, estavam no bar no famoso dia da Independência. Brincadeiras à parte, a primeira vez que se falou em um bar lá em casa, foi no ano de 1987. Meu pai em parceria com um amigo resolveu abrir um bar. Teve um que de misticismo essa idéia, lembro que chamaram uma médium. Ela foi benzer, o ambiente. Algum espírito deve ter dito: “Brito, abre logo esse bar que a gente quer tomar uma!”. O empreendimento fez nascer na alma já inquieta do meu pai um desejo por ser dono de um estabelecimento destinado à diversão solitária ou conjunta onde os seres humanos também vão desafogar mágoas (leia-se: esquecer dos chifres, por exemplo), curtir uma fossa com a mesma presteza com que vão apenas se divertir. O grande diferencial do bar além do seu dono, óbvio, é a boa música. Brito teve o insight de criar o bar porque sempre teve um hábito hedonista de não dispensar uma cervejinha depois do racha numa sexta-feira, junto com os amigos, estendeu esse prazer a um nível empresarial. Não que eu ache que o bar é só um empreendimento, o bar é todo sentimento. O bar surgia assim meio turbulento, entre uma inexperiência e um aprendizado para todos nós, escondidinho na rua Isaac Catão no Jardim Paulistano. Era uma sociedade, e como tal fadada a um certo fracasso, o que adormeceu, mas não matou o desejo de meu pai continuar a ser dono de um bar. Deveria ter pensando grande, poderia ser dono de uma escola, com tantos filhos, sobrinhos, tios, primos, aderentes, professores. Poderia ser político, e estaríamos viajando às custas do povo. O grau de honestidade do meu pai não se permitiu tanto. Estava decidido e ele foi enfático, inciso, preciso... queria um bar, tinha de ser um bar: epicentro de grande alegria, lugar de musica, de cerveja gelada, de animação, de conversa, de tira-gosto. Um lugar bem “do brito”.

O segundo bar foi na travessa almirante alexandrino, a famosa pororoca, numero 100. Era o mesmo local onde antes houvera sido a mercearia do seu Apolônio, meu avô. Em uma sucessão emocional, de pai a filho a linhagem era repassada. Era o ano de 1988 a pororoca ainda não era a “pororoca dos bares”, tinha sido no passado a “pororoca dos cabarés”, de Zefa Garrafada, e a própria Zefa ia sempre ao bar tomar uma dose de cachaça diária. Nesse ambiente exótico onde as figuras do ontem conviviam com as figuras do hoje, eu era um moleque, que saía do colégio e ia ajudar meu pai no bar. Ficava no balcão servindo. Isso até que minha “simpatia” quase espantasse alguns fregueses. Acabei indo parar na cozinha, pra lavar pratos. Isso durou um tempo. Foi até o ano de 1994. Foram seis anos de pororoca. E quatro anos de pausa e reflexão. O bar só reabriria em 1998 na Rua José Gonçalves de Lucena, nº 381, durante dez meses de janeiro a Outubro. E então a partir desse mês, ele deixaria de ser nômade, errante, pra fixar residência onde o conhecemos até hoje: rua Dorinha Vasconcelos, em Santa Rosa. Enquanto escrevia me perguntei, quem seria essa senhora? Procurei a ajuda “googliana”, não me foi esclarecido muito. Com todas as desculpas devidas á sua família e à sua honra, ela acabaria sendo mais conhecida como sendo o endereço do bar. Isso porque o bar tornou-se algo magistral. Não é mais um simples bar, não se pode assim classifica-lo. Não obedece ordens, controle, ditames. Tem vida própria. Age, pensa, se movimenta, se reinventa. Assim como a criação divina, o bar é uma criação britaniana. Um dia, Brito estava muito inspirado. Talvez sufocado em meio à correção de provas, ou quem sabe desejando uma vida de boêmio. Ninguém sabe ao certo. O que se sabe, no entanto, é que ele tomado por uma inspiração divinal abriu a boca e disse: ....! Bem, ninguém entendeu na verdade o que ele disse na hora, porque ele falou rápido demais. Eu traduzo aqui o que ele falou: que faça-se o bar! E tudo foi feito! Para a honra e glória da humanidade. Amém!
(Flavio Guilherme)

2 comentários:

  1. Com um detalhe: se depois de criar o Bar do Brito deus tivesse tomado umas de Serra Limpa (de leve!), comido um Arrumadinho, uma Favinha uma porção de Macaxeira com Carne de Sol (feitos com esmero por Sônia) e curtido uma noitada de Música e Violão aos dedos mágicos dos/as violonistas e percussionistas (quase exclusivos da Casa) e das vozes maravilhosas de tantos/as cantores/as especias... sem dúvidas, teria criado um mundo bem melhor e mais harmonioso... ah, e mais alegre e musical! Evoé!

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  2. Que beleza de poesia pura professor Rangel. Que saudade sinto desse bar que não conheço. Através do orkut em uma comunidade (CAI), tomei conhecimento da existência do Bar do Brito e por ser boêmia nata, ex-aluna do professor Valdinho quando o Cai começou no cruzeiro e amante apaixonada de boa música, boa cozinha e bom ambiente, quedo-me aqui do outro lado do mundo quase sufocando com essa saudade sem tamanho. Por favor, fale um pouco mais sobre o professor Brito, como ele está e se seria possível entrarmos em contacto. Sou Remiragy Leão, moro em Zurique há vinte anos, no orkut meu perfil é Mirim Schlegel. Por favor. Aguardo notícias. abraços e obrigada.

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